“Hoje é o pior dia da minha vida”: pai desabafa após perda da filha em Diadema

Em uma noite que mudou para sempre a vida de uma família no ABC Paulista, o sapateiro Maurício de Souza Alves, de 56 anos, resumiu sua dor com palavras que ecoaram entre os presentes no velório: “Hoje é o pior dia da minha vida”. A declaração, feita nesta quinta-feira no Cemitério Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, marcou o adeus a Mariane Lima Alves, técnica de enfermagem de 27 anos, que perdeu a vida em um episódio ocorrido na residência dos pais, em Diadema. O caso, que envolveu o ex-companheiro Bruno de Oliveira Zeni, de 30 anos, deixou a mãe da vítima ferida, mas fora de perigo, e uma criança de dois anos sem a presença da mãe. Enquanto parentes e amigos se reuniam em silêncio, a comoção se espalhava rapidamente pelas redes sociais, transformando a tragédia em um chamado coletivo por mais proteção e diálogo em relações familiares conflituosas. Essa história, repleta de sonhos interrompidos, continua a tocar leitores que buscam entender como prevenir desfechos tão dolorosos.
Tudo começou na Rua Universal, bairro Piraporinha, por volta das 23h40 de terça-feira. Mariane havia se abrigado na casa dos pais após decidir encerrar um relacionamento de dez anos. Bruno chegou ao local visivelmente alterado e insistiu em levar o filho caçula do casal, que já dormia tranquilo. Diante da negativa da família, a situação evoluiu para um desentendimento grave que terminou com Mariane sem vida e a mãe dela, Mariza Nascimento Lima Alves, de 58 anos, atingida no tórax. Mariza foi socorrida rapidamente, passou por cirurgia e, felizmente, já recebeu alta hospitalar, encontrando forças para acompanhar o velório da filha. A polícia isolou a residência, recolheu elementos importantes no local e localizou o veículo usado por Bruno abandonado em vias próximas, iniciando buscas imediatas. Momentos como esses reforçam a necessidade de apoio psicológico e jurídico para famílias que atravessam separações difíceis.
Mariane era mais do que uma vítima de um episódio isolado: ela representava resiliência e dedicação. Recém-formada em enfermagem, trabalhava em hospitais da região ajudando pacientes com cuidado e empatia. Mãe de dois filhos – um menino de oito anos de relacionamento anterior e o caçula com Bruno –, ela planejava construir um futuro estável para as crianças, investindo em educação e segurança emocional. Colegas a lembram como uma profissional atenciosa, sempre disposta a ouvir e auxiliar. Sua partida precoce deixou um vazio enorme no ambiente de trabalho e na vizinhança, onde era vista como exemplo de superação. Histórias assim convidam a refletir sobre o valor das conquistas pessoais e sobre como pequenas redes de apoio podem fazer diferença na vida de mães que enfrentam desafios sozinhas.
Bruno, registrado como colecionador e atirador desportivo, conviveu com Mariane por uma década em São Bernardo do Campo. As divergências recentes levaram a separação e à decisão dela de buscar refúgio na casa dos pais. Investigadores apontam que o episódio pode ter raízes em discussões sobre a guarda do filho menor, um tema sensível em muitas separações. Após o ocorrido, ele deixou o local e permaneceu foragido por algumas horas, o que mobilizou equipes policiais em busca ativa. Sua apresentação voluntária, acompanhada de advogado, trouxe um desdobramento importante ao caso, permitindo que as autoridades avançassem com o inquérito de forma mais estruturada. Situações desse tipo destacam a relevância de canais de mediação familiar e de programas que ajudem a gerenciar emoções em momentos de crise.
No velório, a emoção tomou conta do ambiente. Parentes, vizinhos e conhecidos formaram uma longa fila para prestar condolências. Faixas e cartazes pediam justiça e rapidez nas investigações. Maurício, com a voz embargada, repetia o quanto a filha tinha planos pela frente: “Ela acabou de se formar, tinha tudo para dar certo”. A mãe, ainda se recuperando fisicamente, encontrou apoio nos abraços e nas palavras de solidariedade. Grupos de mulheres da região organizaram correntes virtuais, compartilhando contatos de ajuda e orientações sobre medidas protetivas. Essa onda de empatia mostra o quanto a comunidade pode se unir em torno de uma perda, transformando luto em ação coletiva por dias mais seguros para todos.
Uma reviravolta trouxe alívio parcial à família horas após o enterro. Bruno se apresentou no 2º Distrito Policial de Diadema na noite desta quinta-feira, entregando a arma que seria utilizada no episódio. O mandado de prisão temporária foi cumprido imediatamente, e o delegado responsável informou que imagens de câmeras de segurança e outros elementos já fortalecem o andamento do inquérito. O caso segue classificado como feminicídio consumado em relação a Mariane e tentativa em relação à mãe dela, com expectativa de encaminhamento célere à Justiça. Esse desfecho inicial permite que a família comece a processar a perda com um pouco mais de serenidade, sabendo que o sistema responde.
Casos como esse refletem um desafio persistente no país: o aumento de conflitos graves em relações íntimas, especialmente quando há crianças envolvidas. Especialistas reforçam a importância de campanhas educativas, acesso rápido a medidas protetivas e programas de reabilitação emocional para quem enfrenta separações. Órgãos públicos e entidades da sociedade civil oferecem linhas de apoio gratuitas, prontas para interromper ciclos de tensão antes que cheguem a desfechos irreversíveis. Ao conhecer a história de Mariane, leitores são convidados a se engajar – seja compartilhando informações úteis, apoiando iniciativas locais ou simplesmente ouvindo quem precisa. É na soma de pequenas atitudes que se constrói uma sociedade mais atenta e acolhedora, onde o luto dê lugar, aos poucos, à esperança de dias melhores.





