Movimento bolsonarista nos EUA ameaçam Trump e Lula; leia

A articulação de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro nos Estados Unidos acendeu um alerta no governo brasileiro e passou a ser vista como um fator capaz de dificultar uma aproximação diplomática entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder americano Donald Trump. Nos bastidores de Brasília, a avaliação é que movimentos recentes ligados ao bolsonarismo indicam uma retomada de influência junto ao Departamento de Estado dos Estados Unidos e também a setores da Casa Branca, o que pode alterar o ambiente político entre os dois países.
A preocupação ganhou força após sinais de que propostas antigas voltaram ao debate em Washington. Entre elas está a ideia de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. No governo brasileiro, essa possibilidade é tratada com cautela e vista como um risco à soberania nacional, já que abriria espaço para uma atuação mais direta dos Estados Unidos em temas de segurança interna do Brasil. A discussão ocorre em um momento sensível, marcado pela proximidade das eleições presidenciais.
Outro episódio que gerou desconforto foi a tentativa de visita ao Brasil do assessor do governo americano Darren Beattie, ligado ao Departamento de Estado. A viagem, inicialmente prevista para a próxima semana, levantou suspeitas dentro do Itamaraty por causa da possibilidade de um encontro com Bolsonaro. A avaliação de integrantes da diplomacia brasileira era de que o compromisso oficial divulgado poderia servir apenas como cobertura para uma reunião política com o ex-presidente.
A visita chegou a ser autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, após pedido da defesa de Bolsonaro. No entanto, a decisão foi revista posteriormente depois que o Ministério das Relações Exteriores alertou para possíveis implicações diplomáticas. O chanceler Mauro Vieira argumentou que o encontro de um representante de um governo estrangeiro com um ex-presidente brasileiro em pleno ano eleitoral poderia ser interpretado como interferência em assuntos internos do país.
De acordo com informações do Itamaraty, até poucos dias antes da viagem não havia qualquer agenda diplomática formal confirmada com o assessor americano. A visita havia sido comunicada por meio de nota diplomática, informando que o funcionário participaria de eventos voltados à promoção das relações bilaterais e a reuniões institucionais. A possibilidade de um encontro com Bolsonaro, porém, não constava nos objetivos oficiais apresentados.
Nos bastidores, o nome de Beattie também chama atenção por seu histórico de críticas a Moraes e por sua proximidade com integrantes da família Bolsonaro, especialmente com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O assessor é apontado como um dos nomes envolvidos na articulação de sanções contra o ministro do STF com base na chamada Lei Magnitsky, mecanismo usado pelos Estados Unidos para punir autoridades estrangeiras acusadas de violações de direitos.
Paralelamente, o debate sobre a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas voltou a ganhar espaço em setores políticos dos Estados Unidos. A proposta, rejeitada pelo governo Lula, tem apoio de figuras da oposição no Brasil, como o senador Flávio Bolsonaro, que é apontado como um possível candidato à Presidência. No Palácio do Planalto, a avaliação é que esse tipo de iniciativa pode ter impacto direto no cenário eleitoral e fortalecer a disputa política interna.
Diante do clima de tensão, a estratégia do governo brasileiro tem sido manter o diálogo aberto com Washington enquanto tenta evitar que a disputa política doméstica contamine a relação diplomática entre os países. Recentemente, o chanceler Mauro Vieira conversou com o secretário de Estado americano Marco Rubio sobre cooperação no combate ao crime organizado. A expectativa do Planalto é ganhar tempo até que um encontro direto entre Lula e Trump possa acontecer e ajudar a reduzir as tensões que hoje cercam a relação bilateral.





