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Lula proíbe ministros em desfile que o homenageia na Sapucaí

A poucos dias do Carnaval, uma decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva movimentou os bastidores de Brasília. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, Lula orientou ministros e auxiliares a não participarem do desfile que vai homenageá-lo no próximo domingo, 5, no Sambódromo do Rio. A recomendação foi repassada na quinta-feira, 12, e pegou parte da equipe de surpresa.

O gesto tem explicação estratégica. Embora o Tribunal Superior Eleitoral tenha rejeitado duas ações que apontavam possível propaganda eleitoral antecipada envolvendo o presidente, o PT e a escola de samba Acadêmicos de Niterói, o Planalto preferiu agir com cautela. A leitura interna é simples: evitar ruídos agora significa diminuir dores de cabeça mais adiante.

Nos corredores do poder, a palavra da vez é “prudência”. Não há impedimento legal para a homenagem. Ainda assim, a avaliação é que a presença de ministros poderia alimentar interpretações políticas em um momento delicado, já que Lula é apontado como pré-candidato à reeleição. Em ano pré-eleitoral, cada gesto é observado com lupa — por adversários, pela opinião pública e, claro, pela própria Justiça.

A orientação foi clara: nada de agendas oficiais que coincidam “por acaso” com o desfile na Sapucaí. Nada de fotos em camarotes institucionais. Nada que possa ser confundido com ato de campanha. A decisão revela um governo atento ao ambiente político, especialmente depois de debates recentes sobre limites entre celebração cultural e promoção pessoal.

Curiosamente, a recomendação não se estende à primeira-dama, Janja da Silva. Janja será um dos destaques do último carro alegórico da escola. Como não ocupa cargo formal no governo, sua participação não se enquadra nas mesmas regras aplicadas aos ministros. Ainda assim, sua presença deve atrair holofotes e gerar comentários nas redes sociais.

A homenagem marca também a estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro. O enredo, intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, promete contar a trajetória do presidente desde as origens humildes até o Palácio do Planalto. Trechos como “olê, olê, olá, Lula! Lula!” e referências ao número 13 fazem parte da narrativa que a escola levará à avenida.

Para além da política, o Carnaval continua sendo um espaço de expressão cultural, onde figuras históricas e personagens contemporâneos frequentemente viram tema de samba-enredo. Já passaram pela Marquês de Sapucaí líderes internacionais, artistas, escritores e movimentos sociais. Não é novidade que a política apareça na avenida — o que muda é o contexto.

E o contexto atual é de vigilância permanente. Redes sociais amplificam cada imagem, cada gesto, cada ausência. Uma foto pode virar manchete em minutos. Um vídeo curto pode render interpretações variadas. Por isso, a decisão de Lula soa menos como recuo e mais como cálculo político.

No fim das contas, o presidente será homenageado mesmo sem a presença oficial de seus ministros. A escola mantém o desfile, o TSE já se posicionou e o público terá seu espetáculo. Resta saber como a narrativa será recebida fora da avenida. Em tempos de polarização, até o samba pode virar debate.

Entre plumas, batuques e estratégias, a política brasileira mostra que sabe dançar conforme a música — mas sem perder de vista o compasso institucional.

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