Moro critica desfile em homenagem a Lula e diz que faltou “carro da Odebrecht” na Sapucaí

O Carnaval do Rio de Janeiro costuma ser um território onde arte, cultura popular e crítica social caminham juntas. Mas, neste ano, a festa ganhou um tempero extra de debate político. O senador Sergio Moro usou as redes sociais para criticar o desfile da Acadêmicos de Niterói, que levou para a Marquês de Sapucaí um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A apresentação, intitulada “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, marcou a estreia da escola no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro. O enredo percorreu a trajetória do presidente, desde a infância em Pernambuco até a chegada ao Palácio do Planalto. Lula acompanhou tudo de um camarote, sorridente, acenando para o público, enquanto a escola cantava versos que exaltavam sua história.
Para Moro, no entanto, o desfile ultrapassou a linha da homenagem cultural. Em sua publicação, ele classificou o espetáculo como um “deprimente abuso de poder”. Ironizou ao dizer que “faltou o carro da Odebrecht e do sítio de Atibaia”, numa referência direta a episódios que marcaram a época da Operação Lava Jato, investigação que o próprio senador conduziu como juiz federal antes de entrar para a política.
A crítica não surgiu do nada. Antes mesmo de a escola pisar na Sapucaí, integrantes da oposição já questionavam se a homenagem poderia ser interpretada como propaganda eleitoral antecipada. Pedidos foram apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Tribunal de Contas da União, tentando barrar o desfile ou discutir repasses públicos à agremiação.
A Justiça, porém, decidiu manter a apresentação. O entendimento foi de que impedir previamente o desfile poderia configurar censura. E, no Brasil, quando o assunto é liberdade artística, o histórico pesa. A avenida ficou livre para o samba correr.
No meio disso tudo, a Acadêmicos de Niterói acabou conquistando algo raro: visibilidade nacional em sua primeira participação entre as gigantes. Fundada em 2018, a escola dividiu os holofotes com tradicionais como Estação Primeira de Mangueira, Portela e Acadêmicos do Salgueiro. Para uma estreante, não é pouca coisa.
Além da discussão política, outro episódio aumentou a temperatura: a saída do presidente da escola, Wallace Palhares, de um cargo na Assembleia Legislativa do Rio. O caso ampliou as conversas sobre possíveis conexões entre cultura e poder público. Nada que impedisse o desfile, mas suficiente para alimentar rodas de conversa em bares, programas de TV e grupos de mensagens.
O fato é que o Carnaval, historicamente, sempre dialogou com o momento do país. Já exaltou líderes, criticou governos, contou histórias esquecidas e deu voz a comunidades. Às vezes emociona, às vezes incomoda. E talvez seja justamente esse o seu papel.
No fim das contas, o desfile da Acadêmicos de Niterói mostrou como política e cultura seguem entrelaçadas no Brasil. Para uns, foi celebração legítima de uma trajetória. Para outros, propaganda disfarçada. Entre aplausos e críticas, a avenida cumpriu sua função: provocar, emocionar e fazer o país conversar — nem sempre em tom baixo, mas quase sempre ao som do tamborim.





