Fundador do PT morreu após mal súbito e não afogado, dizem Bombeiros

A notícia da morte de José Álvaro Moisés pegou muita gente de surpresa na última sexta-feira, 13 de fevereiro. Aos 81 anos, o sociólogo e cientista político foi encontrado inconsciente na praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Num primeiro momento, a informação divulgada apontava para afogamento. Dias depois, porém, o quadro foi esclarecido.
O Grupo de Bombeiros Marítimos informou, em nota publicada na quarta-feira (18/2), que Moisés sofreu um mal súbito enquanto ainda estava na água. A corporação explicou que, por essa razão, o caso não foi contabilizado como afogamento. A retificação ajudou a organizar os fatos e evitar interpretações equivocadas.
Na tarde do dia 13, por volta das 17h40, ele foi localizado já na faixa de areia. As equipes de salvamento iniciaram imediatamente as manobras de reanimação cardiopulmonar, seguindo o protocolo padrão de atendimento em ocorrências no mar. O trabalho continuou até a chegada da equipe médica, que deu sequência aos procedimentos avançados. Apesar dos esforços, o óbito foi constatado ali mesmo.
A cena, em uma das praias mais conhecidas de Ubatuba, contrasta com a trajetória intensa de quem dedicou a vida ao estudo da democracia brasileira. Professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Moisés construiu uma carreira marcada por rigor acadêmico e participação ativa no debate público.
Formado e doutorado pela própria USP, ele se tornou referência ao analisar os desafios institucionais do país após a redemocratização. Em tempos em que o Brasil volta e meia discute confiança nas instituições, funcionamento do Congresso e qualidade da representação política, suas pesquisas seguem atuais. Ele estudou de perto temas como cultura política, participação cidadã e governança, sempre com olhar crítico e fundamentado em dados.
Nos anos 1980, esteve entre os participantes da fundação do Partido dos Trabalhadores. Era um período de efervescência política, marcado pelo fim do regime militar e pela reorganização das forças partidárias. Com o passar do tempo, afastou-se da militância partidária e concentrou sua energia na universidade. Ainda assim, nunca deixou de analisar o desempenho das legendas, inclusive do próprio PT, com independência intelectual.
À frente do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas (NUPPs/USP), coordenou estudos sobre opinião pública que ajudaram a aproximar a produção acadêmica do cotidiano das pessoas. Seus livros e artigos circularam não apenas entre especialistas, mas também entre jornalistas, gestores públicos e estudantes interessados em compreender melhor o funcionamento da democracia no Brasil e na América Latina.
A Associação Brasileira de Ciência Política lamentou a morte e destacou sua importância para a área. Em nota, a entidade ressaltou o compromisso de Moisés com a vida pública e o legado deixado para gerações de pesquisadores. Muitos dos cientistas políticos que hoje participam de debates na imprensa ou ocupam posições em universidades passaram por suas aulas ou foram influenciados por suas ideias.
Em um momento em que o país discute polarização, fortalecimento institucional e qualidade do debate público, a ausência de vozes experientes como a dele é sentida. José Álvaro Moisés deixa uma trajetória sólida, construída com estudo, reflexão e disposição para o diálogo. Mais do que títulos ou cargos, permanece a contribuição para que o Brasil compreenda melhor a própria democracia — com seus avanços, limites e desafios permanentes.





