Ideologia ou Arte? Escola com nome de Lula causa revolta ao expor evangélicos em latas

O desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio de Janeiro ganhou destaque nas redes sociais e no debate político após apresentar uma ala intitulada “Neoconservadores em conserva”. A escola, que levou para a avenida um enredo com referências ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apostou em uma abordagem satírica para retratar setores críticos ao governo. O resultado foi uma apresentação que ultrapassou os limites da Sapucaí e se transformou em assunto nacional.
A ala, identificada como número 22 — mesmo número de urna do Partido Liberal — chamou atenção pelo figurino criativo. Os integrantes desfilaram com fantasias em formato de lata de conserva, em uma metáfora que, segundo a própria escola, buscava representar visões consideradas tradicionais e resistentes a mudanças. A proposta foi construída como elemento artístico dentro do contexto carnavalesco, conhecido por sua irreverência e crítica social.
De acordo com a descrição divulgada pela agremiação, a lata simbolizaria uma concepção específica de família, apresentada como composta apenas por homem, mulher e filhos. A ideia, segundo o enredo, era dialogar com discursos associados ao chamado neoconservadorismo, grupo que se posiciona contra pautas defendidas pelo atual governo federal e apoia propostas como privatizações e alterações nas regras trabalhistas.
Cada componente da ala também utilizava adereços na cabeça representando diferentes segmentos ligados a essa corrente ideológica. Entre as caracterizações estavam figuras como fazendeiros, empresários, lideranças religiosas e referências a setores que defendem maior protagonismo militar. A proposta, segundo os organizadores, era construir uma representação simbólica desses grupos dentro da narrativa do desfile.
A apresentação provocou reações diversas. Enquanto parte do público destacou a criatividade e a liberdade artística da escola, outros consideraram o tom inadequado para um evento cultural de grande alcance. Nas redes sociais, o tema gerou debates intensos, com opiniões divididas entre quem enxerga o Carnaval como espaço legítimo para crítica política e quem defende que a festa deveria se manter distante de posicionamentos partidários.
O Carnaval carioca, historicamente, sempre foi palco de manifestações culturais que dialogam com temas sociais e políticos. Escolas de samba frequentemente utilizam seus enredos para abordar desigualdade, memória histórica, direitos civis e figuras públicas. Nesse contexto, a Acadêmicos de Niterói seguiu uma tradição de transformar a avenida em espaço de reflexão, ainda que com linguagem marcada pela ironia e pela sátira.
Com a repercussão nacional, o desfile reforça como a cultura popular segue sendo um terreno fértil para discussões que ultrapassam o entretenimento. Independentemente das posições ideológicas, o episódio evidencia a força simbólica do Carnaval como ferramenta de expressão artística. Em meio a fantasias, alegorias e sambas-enredo, a avenida mais uma vez mostrou que também é palco de debates que movimentam o país muito além dos quatro dias de folia.





