Irmão de Alexandre de Moraes é militante de esquerda, escritor e dono de cartório

A frase dita por Leonardo de Moraes — “não tenho a menor dúvida de que meu irmão ajudou a salvar a democracia brasileira” — não é apenas uma opinião familiar. Ela resume, de certa forma, o tom de um momento político que ainda reverbera no país, especialmente depois dos acontecimentos de janeiro de 2023.
Leonardo, aos 47 anos, não é uma figura comum. Advogado, professor de Direitos Humanos, escritor e artista plástico, ele construiu uma trajetória que transita entre o universo jurídico e o cultural. Mas é impossível ignorar o peso do sobrenome. Ser irmão de Alexandre de Moraes acabou moldando, direta ou indiretamente, parte do seu caminho.
Ao longo dos anos 2000, os dois circularam por espaços semelhantes. Leonardo atuou como assessor jurídico em órgãos públicos de São Paulo justamente quando Alexandre ganhava projeção como secretário estadual. Não eram cargos idênticos, mas estavam inseridos no mesmo ambiente político-administrativo — aquele tipo de proximidade que, no Brasil, costuma levantar sobrancelhas.
Mais tarde, entre 2009 e 2014, os irmãos chegaram a dividir o mesmo escritório de advocacia. Um período que, olhando em retrospecto, parece ter sido uma ponte entre o mundo técnico do Direito e a crescente exposição pública que viria depois.
Em 2017, o mesmo ano em que Alexandre assumiu uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, Leonardo seguiu outro rumo: tornou-se tabelião do 1º Cartório de Notas de Santos. Ele mesmo já disse, com certa franqueza, que a escolha teve um motivo simples — estabilidade financeira. “É o que paga os boletos”, comentou em entrevistas, sem rodeios.
Mas a história não para aí. Nos últimos anos, Leonardo passou a ocupar também um espaço mais opinativo. Em meio ao clima político acirrado que marcou o Brasil recente, ele se define como um “recruta tardio” na defesa da democracia. Essa guinada aparece com força em seu livro Tia Beth, lançado em 2023, que mistura ficção e memória para discutir o passado autoritário do país e possíveis riscos no presente.
Aliás, esse tipo de debate ganhou ainda mais visibilidade depois dos episódios de 8 de janeiro, que reacenderam discussões sobre instituições, limites e responsabilidade política. É nesse contexto que a fala de Leonardo sobre o irmão ganha mais peso — não como análise técnica, mas como alguém que observa tudo de dentro, com lentes pessoais e ideológicas.
E ele não esconde essas posições. Em entrevistas e participações em podcasts, critica duramente lideranças conservadoras e questiona o uso da religião como ferramenta política. Ao mesmo tempo, rebate críticas frequentes sobre “doutrinação” nas escolas com um tom quase irônico, dizendo que muitos dos que acusam sequer conhecem os conceitos que mencionam.
Curiosamente, Leonardo também abraçou o lado digital. Mantém presença ativa nas redes sociais, onde fala tanto sobre arte quanto sobre temas do cotidiano jurídico. No perfil do cartório, por exemplo, atua quase como um “tabelião influencer”, explicando assuntos como testamentos e união estável de forma simples, como quem conversa com um vizinho.
Claro, nem tudo são aplausos. Seu nome apareceu recentemente em discussões jurídicas envolvendo regras para cartórios em São Paulo. Há questionamentos, análises em andamento e versões conflitantes — algo comum quando política, Justiça e relações pessoais se cruzam.
Mesmo assim, Leonardo segue em frente, escrevendo, opinando e ocupando espaço. No fim das contas, sua trajetória mistura mérito próprio, oportunidades e, inevitavelmente, o peso de estar ligado a uma das figuras mais influentes do Judiciário brasileiro hoje.
Se isso o coloca “no lugar certo, na hora certa” ou apenas expõe as engrenagens do poder no país, fica a cargo de quem observa.



