Jornalistas registram BO após ameaças por vídeo compartilhado por Michelle Bolsonaro durante cobertura no Hospital DF Star

Jornalistas que cobriam a internação do ex-presidente Jair Bolsonaro no Hospital DF Star, em Brasília, registraram boletins de ocorrência na polícia após sofrerem ameaças de morte e ofensas nas redes sociais e na rua. O episódio teve origem em um vídeo gravado por uma apoiadora bolsonarista na sexta-feira, 13 de março, e amplificado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em suas redes sociais no dia seguinte. Profissionais de imprensa relatam que a divulgação do material, sem comprovação de fatos, gerou uma onda de hostilidades direcionadas a eles e a seus familiares.
A apoiadora, identificada como Cris Mourão, aproximou-se do grupo de repórteres reunidos do lado de fora do hospital e iniciou uma gravação enquanto eles acompanhavam as atualizações sobre o estado de saúde de Bolsonaro, internado na UTI com pneumonia bacteriana bilateral. Na filmagem, a mulher confronta os profissionais e os acusa de comentarem sobre a possibilidade de morte do ex-presidente, além de supostamente comemorarem o fato de ser uma sexta-feira 13. O áudio do vídeo, no entanto, não registra de forma clara as supostas falas dos jornalistas, deixando a acusação baseada apenas na interpretação da autora das imagens.
Michelle Bolsonaro compartilhou o conteúdo em seu perfil no Instagram, que conta com mais de oito milhões de seguidores, acompanhado da legenda “jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”. A postagem reproduziu integralmente o vídeo e rapidamente ganhou repercussão entre perfis alinhados ao ex-presidente, transformando a gravação em um ponto de mobilização nas redes. Antes mesmo da divulgação por Michelle, alguns repórteres já haviam notado o aumento de mensagens hostis direcionadas a eles.
A exposição nas redes sociais resultou em uma série de ataques virtuais, incluindo montagens com uso de inteligência artificial que simulavam violência contra os profissionais, além de ameaças diretas enviadas por telefone e perfis anônimos. Pelo menos duas jornalistas relataram ter sido reconhecidas e abordadas de forma intimidatória em via pública, o que elevou o nível de insegurança durante a cobertura rotineira do caso. Familiares dos envolvidos também passaram a receber mensagens ofensivas, ampliando o impacto além do ambiente profissional.
Diante do volume de ameaças, ao menos dois dos jornalistas afetados compareceram à delegacia para registrar boletim de ocorrência, buscando proteção policial e o devido encaminhamento das investigações sobre os autores dos ataques. O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal acompanhou os casos e reforçou a necessidade de medidas de segurança para a categoria, destacando que o exercício da profissão não pode ser criminalizado por interpretações distorcidas de conversas em ambiente de trabalho.
Entidades representativas do jornalismo, como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), emitiram notas públicas de repúdio ao episódio. Elas classificaram a divulgação do vídeo como irresponsável e condenaram a difamação que incita violência contra profissionais que apenas cumpriam sua função de informar sobre o quadro clínico do ex-presidente. As organizações cobraram das autoridades medidas efetivas para garantir a integridade física e moral dos repórteres.
O caso reacende o debate sobre os riscos da desinformação e dos ataques sistemáticos à imprensa em momentos de alta sensibilidade política. Enquanto o ex-presidente permanece internado sem previsão de alta, a cobertura jornalística continua essencial para a transparência pública, mas profissionais relatam que episódios como esse criam um ambiente de intimidação que pode comprometer o livre exercício da atividade. O episódio serve como alerta para a responsabilidade no compartilhamento de conteúdos que, embora legais, podem gerar consequências reais de violência.





