Mãe de crianças mortas pelo pai se pronuncia sobre a tragédia

A madrugada do dia 12 de fevereiro deixou uma marca profunda em Itumbiara. O que era para ser apenas mais uma semana comum no calendário da cidade se transformou em um daqueles episódios que silenciam ruas, paralisam conversas e fazem todo mundo olhar para dentro de casa com um nó na garganta.
No centro da dor está Sarah Tinoco Araújo. Em uma carta aberta publicada nas redes sociais, ela expôs o que nenhuma mãe imagina precisar escrever: a despedida dos próprios filhos. Miguel, de 12 anos, e Benício, de 8, perderam a vida dentro da residência da família. O pai das crianças, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, também morreu na mesma madrugada.
Segundo informações confirmadas pela Polícia Civil de Goiás, o caso ocorreu no ambiente familiar. Um inquérito foi aberto para esclarecer todos os detalhes, e até o momento não há indícios de participação de terceiros. A investigação segue para compreender a dinâmica completa dos fatos.
Sarah, ao publicar sua carta, não tentou fugir da própria responsabilidade emocional. Pelo contrário. Em um dos trechos mais impactantes, ela reconhece erros no casamento e afirma que carregará para sempre o peso das escolhas que fez. Ao mesmo tempo, deixa claro que nada justifica a dimensão da tragédia. “Meus filhos eram inocentes”, escreveu. E é impossível ler essa frase sem sentir o peso real da palavra inocentes.
O menino mais velho morreu ainda na residência. O mais novo chegou a ser socorrido, mas não resistiu no hospital no dia seguinte. A cidade acompanhou tudo com incredulidade. Em grupos de mensagens, nas filas de padaria, nas portas das escolas, só se falava nisso. Pais abraçaram seus filhos com mais força naquela semana.
Thales integrava a administração municipal e era genro do prefeito Dione Araújo. A Prefeitura decretou luto oficial de três dias e suspendeu o expediente administrativo. A medida foi uma forma institucional de reconhecer o impacto coletivo da perda.
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também se manifestou publicamente. Em nota, afirmou que episódios de violência dentro do lar, especialmente quando envolvem crianças, atingem toda a sociedade. E atingem mesmo. Porque mexem com o que há de mais básico: a ideia de segurança dentro de casa.
Dias antes do ocorrido, Thales havia feito publicações nas redes sociais falando sobre família. Em um vídeo, declarou que “família é o mais importante da vida”. Depois da tragédia, uma carta atribuída a ele chegou a ser publicada e, em seguida, retirada do ar. Pessoas próximas confirmaram à CNN Brasil a autenticidade do texto, que mencionava uma crise conjugal e trazia referências religiosas.
Tudo isso amplia a sensação de perplexidade. Como algo tão doloroso pode acontecer entre quatro paredes, longe dos olhos do mundo? A resposta talvez nunca seja simples.
A carta de Sarah termina com um pedido de misericórdia e descanso eterno para os filhos. Não há discurso político, não há defesa pública, não há tentativa de reconstruir imagem. Só dor. Uma dor crua, sem filtro.
Casos assim reacendem discussões importantes sobre saúde emocional, diálogo e redes de apoio. Muitas vezes, sinais de sofrimento passam despercebidos ou são minimizados. Falar sobre isso, com responsabilidade e respeito, é um passo necessário para que outras famílias encontrem ajuda antes que seja tarde.
Em Itumbiara, o sentimento ainda é de silêncio. Um silêncio pesado. Mas também há solidariedade. Porque, no fim das contas, quando crianças partem, não é apenas uma família que sofre. É toda uma comunidade que se vê obrigada a reaprender a respirar.





