Geral

Nunes afirma a Flávio que Bolsonaro é “difícil”

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), escolheu um tom direto ao comentar os bastidores da própria reeleição. Em evento realizado nesta sexta-feira (27), na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), durante homenagem a Valdemar Costa Neto, Nunes afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro é “uma pessoa difícil”. A frase, dita de maneira quase descontraída, acabou chamando mais atenção do que o próprio evento.

Dirigindo-se ao senador Flávio Bolsonaro, que estava no palco, o prefeito comentou que Valdemar “ama o seu pai de verdade” e que todos ali têm consideração por Bolsonaro. Mas fez a ressalva: “é uma pessoa difícil”. O auditório reagiu com aquele misto de riso contido e curiosidade. Política tem dessas cenas que parecem pequenas, mas carregam muita história por trás.

Segundo Nunes, o caminho até a consolidação de sua candidatura à reeleição, em 2024, não foi simples. Ele relembrou que enfrentava um cenário de união entre partidos de esquerda, com candidaturas lançadas por Partido dos Trabalhadores (PT) e Partido Socialismo e Liberdade (Psol). A leitura dele era clara: havia uma articulação organizada para derrotá-lo na capital.

Foi nesse contexto que decidiu viajar a Brasília para conversar pessoalmente com Bolsonaro. A aproximação, de acordo com o prefeito, começou de maneira informal, em um almoço descrito como “simples”. Nada de grandes cerimônias. Conversa olho no olho. Valdemar, segundo Nunes, insistia que Bolsonaro precisava ser conquistado. E atuou diretamente para que o apoio se concretizasse.

O relato reforça algo que circula nos bastidores há anos: alianças políticas raramente nascem prontas. São costuradas com paciência, insistência e, muitas vezes, com concessões silenciosas. Nunes fez questão de frisar que o presidente do PL teve papel central nessa construção.

Durante o discurso, o prefeito também mencionou números de uma pesquisa divulgada nesta semana. Sem detalhar o instituto responsável, citou dois percentuais: 44,4 e 43,2. E lançou a provocação: “Quem sabe o 44,4 não venha em primeiro lugar?”. A fala foi interpretada como um aceno otimista ao seu grupo político, sinalizando confiança no cenário atual.

Em outro momento, Nunes citou também Eduardo Bolsonaro e afirmou que ele e o pai não estavam presentes “porque não deixaram que estivessem”. Bolsonaro cumpre pena no Complexo da Papuda, em Brasília, enquanto Eduardo está nos Estados Unidos, onde declarou estar em autoexílio. O comentário do prefeito, ainda que breve, trouxe para o palco um pano de fundo nacional que influencia diretamente a política paulista.

Vale lembrar que, na disputa municipal de 2024, Bolsonaro chegou a sinalizar aproximação com outras pré-candidaturas do campo da direita. Já o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) declarou apoio a Nunes. Após a vitória, o prefeito não economizou nos elogios e chamou Tarcísio de “líder maior” da articulação em São Paulo.

No fim das contas, a declaração sobre Bolsonaro ser “difícil” parece menos um ataque e mais um retrato franco das engrenagens políticas. Em tempos de discursos ensaiados e frases calculadas, a espontaneidade de Nunes revelou algo raro: a política, por trás das câmeras e dos palanques, continua sendo feita por pessoas, com suas virtudes, resistências e temperamentos.
 

CONTINUAR LENDO →
Mostrar mais