Presidente do SBT, Daniela Beyruti liga para deputada Erika Hilton

A presidente do SBT, Daniela Beyruti, filha de Silvio Santos e atual responsável pela gestão da emissora, entrou em contato direto com a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) por meio de uma ligação telefônica para apresentar desculpas formais em nome do canal. O gesto ocorreu na sequência dos comentários polêmicos feitos pelo apresentador Carlos Massa, o Ratinho, durante a transmissão de seu programa na noite de 11 de março de 2026, episódio que rapidamente ganhou repercussão nacional e gerou forte mobilização em redes sociais, veículos de imprensa e círculos políticos.
Os comentários de Ratinho foram proferidos no contexto da recente eleição de Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados. Em tom crítico e irônico, o apresentador questionou publicamente a legitimidade da deputada para ocupar o cargo, declarando de forma explícita que ela “não é mulher, é trans” e insistindo que a condição feminina exigiria características biológicas específicas, como a presença de útero e a ocorrência de menstruação. Essas afirmações foram feitas ao vivo, sem filtros ou ressalvas, o que ampliou o alcance e o impacto das palavras.
A fala provocou imediata reação de repúdio por parte de movimentos feministas, coletivos LGBTQIA+, parlamentares de diferentes partidos e organizações de defesa dos direitos humanos. Muitos analistas e ativistas classificaram as declarações como transfóbicas, argumentando que elas reforçam estereótipos discriminatórios e desrespeitam a identidade de gênero reconhecida legalmente no Brasil desde decisões do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça. O episódio também reacendeu discussões sobre o uso da televisão aberta como espaço de disseminação de preconceitos.
A conversa entre Daniela Beyruti e Erika Hilton teve duração aproximada de dez minutos e foi descrita pela própria deputada como um diálogo respeitoso e construtivo. Segundo Erika, a presidente do SBT demonstrou educação e sensibilidade ao longo da ligação, apresentando o pedido de desculpas em nome da emissora e deixando claro que as opiniões expressas por Ratinho não correspondem aos princípios institucionais do SBT nem à linha editorial que a empresa busca manter. A parlamentar avaliou o gesto como positivo, embora tenha enfatizado que ele não interfere nas providências jurídicas que já foram adotadas.
Entre as medidas anunciadas por Erika Hilton estão a representação formal protocolada junto ao Ministério Público do Estado de São Paulo, a solicitação de investigação criminal por eventual crime de discriminação, o pedido de indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 10 milhões e a representação ao Ministério das Comunicações para que determine a suspensão temporária do programa Ratinho por 30 dias. A deputada também destacou que busca responsabilização não apenas individual, mas institucional, visando prevenir a repetição de episódios semelhantes em veículos de comunicação de grande alcance.
Na véspera da ligação, a direção do SBT já havia divulgado uma nota oficial na qual repudiava qualquer forma de discriminação, preconceito ou intolerância, informando que o caso estava sendo analisado internamente com a devida seriedade e que medidas disciplinares poderiam ser aplicadas conforme o resultado da apuração. A iniciativa pessoal de Daniela Beyruti, ao telefonar diretamente para a deputada, representa um passo adicional e mais direto de tentativa de reparação, sinalizando que a emissora reconhece a gravidade do episódio e busca mitigar os danos causados à imagem de Erika Hilton e à comunidade trans.
O incidente expõe, mais uma vez, os desafios enfrentados pela televisão brasileira no equilíbrio entre liberdade de expressão, responsabilidade editorial e respeito à diversidade de gênero e identidade. Enquanto especialistas em direito da comunicação acompanham os desdobramentos judiciais e regulatórios, a sociedade civil continua o debate sobre o poder da mídia em moldar percepções sociais e o dever das emissoras de promover narrativas inclusivas, especialmente em um momento em que questões de gênero e direitos humanos ocupam posição central na agenda pública brasileira.





