Psicólogo morre após denunciar racismo em camarote de Salvador

O Carnaval de 2026 em Salvador chegou ao fim deixando aquele sentimento conhecido de quem vive intensamente a folia: alegria misturada com saudade. Foram dias de música alta, multidões nas ruas e uma energia difícil de explicar. A Bahia celebrou números positivos no turismo e na economia, reforçando o peso da festa como um dos maiores eventos culturais do mundo. Ao mesmo tempo, episódios recentes abriram espaço para reflexões importantes sobre convivência, respeito e saúde emocional.
De acordo com estimativas divulgadas após o encerramento oficial, cerca de 12 milhões de foliões participaram do Carnaval na capital baiana entre os dias 12 e 17 de fevereiro. Só de turistas, foram mais de 3,8 milhões de pessoas vindas de diversas partes do Brasil e também do exterior. Argentinos, franceses, espanhóis e norte-americanos estavam entre os estrangeiros que circularam pelos tradicionais circuitos Barra-Ondina e Campo Grande.
Hotéis lotados, restaurantes movimentados e vendedores comemorando bons resultados. Para muita gente, o Carnaval representa não apenas diversão, mas também renda e oportunidade. É o caso de ambulantes, músicos e trabalhadores temporários que aguardam o ano inteiro por esse período.
Mas nem tudo foi festa.
No dia 17 de fevereiro, o psicólogo Manoel Rocha Reis Neto publicou um relato nas redes sociais que rapidamente se espalhou. No texto, ele descreveu uma situação vivida em um camarote no circuito Barra-Ondina. Segundo ele, apesar do ambiente festivo, houve um momento em que se sentiu ignorado e desrespeitado ao tentar circular pelo espaço.
O desabafo começou com uma frase que chamou atenção pela força e sinceridade. Ele refletiu sobre como, muitas vezes, pessoas negras precisam lidar com situações de invisibilidade social. No relato, contou que inicialmente tentou agir com cordialidade, pedindo licença, mas teve a sensação de que sua presença não era reconhecida.
Pessoas próximas afirmaram que Manoel era um profissional dedicado e respeitado. Formado pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, ele também tinha pós-graduação na área de saúde da família e atuava com psicanálise em consultório particular. Amigos e colegas o descreviam como alguém sensível, comprometido com o cuidado emocional das pessoas.
Horas após a publicação, a notícia de sua morte causou profunda comoção. Nas redes sociais, mensagens de despedida se multiplicaram. Profissionais da psicologia, educadores e integrantes de movimentos sociais destacaram a importância de discutir saúde mental com mais abertura, especialmente entre grupos que enfrentam pressões sociais constantes.
A educadora social Bárbara Carine, em um vídeo publicado posteriormente, falou sobre a necessidade de empatia nas relações humanas. Segundo ela, muitas dores não são visíveis, e pequenos gestos de respeito podem fazer grande diferença no dia a dia de alguém.
Além desse episódio, outro caso envolvendo discriminação foi registrado durante o Carnaval, desta vez envolvendo um turista que acabou sendo conduzido à delegacia após ofensas direcionadas a funcionárias de um camarote. A investigação está sendo conduzida pela Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa.
Em nota oficial, o Camarote Ondina manifestou solidariedade à família de Manoel e reforçou o compromisso com a inclusão e o respeito. A organização destacou que o Carnaval é uma celebração da diversidade e da cultura afro-brasileira, pilares fundamentais da identidade baiana.
Apesar dos acontecimentos, o saldo econômico e turístico do Carnaval segue sendo considerado positivo. Ainda assim, os fatos recentes servem como lembrete de que grandes eventos também precisam ser espaços de acolhimento e convivência saudável.
No fim das contas, o Carnaval é feito de encontros, música e emoção. Mas também é um espelho da sociedade. E talvez o maior aprendizado deixado por 2026 seja justamente este: celebrar é importante, mas respeitar e cuidar uns dos outros é essencial — dentro e fora da festa.
Se você ou alguém próximo estiver enfrentando sofrimento emocional, é possível buscar apoio gratuito pelo Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188, com atendimento 24 horas em todo o Brasil.





