Relator diz que CPI teve acesso a dados do Master que apontam repasses a familiares de Toffoli e Moraes

A CPI do Crime Organizado, instalada em novembro de 2025 no Senado, voltou a chamar atenção do país nesta semana com revelações envolvendo familiares de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O relator da comissão, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), concedeu entrevista ao SBT News detalhando informações obtidas a partir da quebra de sigilo bancário do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo Vieira, os documentos indicam circulação de recursos entre o grupo investigado e familiares dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
“Não é razoável afirmar agora que essa movimentação é ilícita. Moralmente, é reprovável; juridicamente, ainda precisamos avançar com cautela”, declarou Vieira. Ele destacou que os documentos analisados permanecem sob sigilo e que as informações foram obtidas de Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) do Coaf, que registram movimentações consideradas incomuns no sistema financeiro. “Do Reag temos 200 laudas; do Banco Master, 80 páginas. São muitas informações de transferências atípicas ou suspeitas”, explicou o senador.
No caso de Dias Toffoli, Vieira apontou que o ministro é sócio oculto de um fundo patrimonial e possui cotas em um resort, confirmadas pelo próprio Toffoli por meio da empresa Maridt Participações, da qual é sócio junto aos irmãos. A empresa teve participação no Grupo Tayaya Ribeirão Claro, vendida posteriormente ao Fundo Arlen em 2021, e a posição foi totalmente liquidada em 2025 com venda à PHD Holding. Vale lembrar que Toffoli foi relator de um inquérito que investigava fraudes envolvendo o Banco Master até fevereiro deste ano, quando se declarou suspeito para julgar o caso, após reunião considerada tensa com outros ministros da Corte.
No caso de Alexandre de Moraes, o foco está no escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, que firmou contrato com o Banco Master prevendo o pagamento de R$ 129 milhões em três anos. O documento, apreendido pela Polícia Federal na operação Compliance Zero, detalha pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões a partir de 2024. O escritório confirmou o contrato, mas negou qualquer atuação em causas do banco perante o STF, afirmando que 15 advogados participaram das ações jurídicas. Vieira questionou a proporcionalidade dos serviços prestados e disse que há indícios de que os valores recebidos não correspondem à prestação do serviço.
Em resposta, o escritório entrou com ação por calúnia e difamação contra Vieira, pedindo indenização por danos morais. O senador, por sua vez, chamou a ação de tentativa de intimidação e esclareceu que nunca afirmou que “dinheiro do PCC circula pelas contas de familiares do ministro”, como alegado pelo escritório.
Vieira ressaltou que a CPI avança com cautela para evitar injustiças, mas que já se observa um uso complexo de fundos para movimentações financeiras suspeitas, envolvendo autoridades, políticos e familiares de ministros. A Procuradoria-Geral da República (PGR), no entanto, arquivou pedido de investigação sobre Moraes e sua esposa em dezembro passado, considerando que não havia indícios de ilicitude.
O debate sobre a CPI e suas descobertas coloca novamente em evidência a discussão sobre transparência e controle de recursos públicos e privados no Brasil. Para Vieira, investigar ministros do STF é uma frente inédita no país, reforçando que nenhuma toga garante impunidade.





